|
Há controvérsias
Gostamos de afirmações categóricas, declarações definitivas e certezas. Não gostamos de perguntas, considerações provisórias, dúvidas, debates e discussões. Gostamos de respostas prontas e critérios claramente definidos. Não gostamos de probabilidades, possibilidades e indicadores relativos. Gostamos de "isso ou aquilo". Não gostamos de "isso e aquilo". Gostamos de "certo e errado". Não gostamos de "nem certo, nem errado", apenas diferente. Deus é amor. Deus é justiça. Quando, então, devemos agir com amor, e quando devemos optar pela justiça? Exigimos: uma coisa ou outra, categoricamente, sem necessidade de interpretações. Dizer que somente a ação amorosa é justa e somente a ação justa é amorosa deixa margens para mal entendidos e, consequentemente, confusão. Melhor é escolher entre uma coisa e outra; as duas, não dá. Ou amor. Ou justiça. Talvez por isso sejam poucos os que se aventuram pelas trilhas do discipulado de Jesus. Seguir a Jesus implica abandonar o jugo da lei para buscar a justiça do reino de Deus. A justiça sempre extrapola a lei. O ser humano é complexo demais para que suas ações sejam resumidas a um conjunto de "isso pode e isso não pode". A vida é complexa demais para que tenha suas circunstâncias definidas em termos absolutos por mandamentos, regras e normas de procedimento. A vida não cabe num manual. Responda rápido: meu filho adolescente não está bem na escola. Devo ser duro na disciplina ou compreensivo nesta fase de conflitos e mudanças? Estou absolutamente convencido de algo, mas minha esposa não quer assumir riscos. Devo seguir em frente e fazer a coisa sozinho ou devo esperar um pouco mais para tentar chegar a um consenso? Meu marido não agüenta mais a pressão no trabalho. Devo encorajar que ele peça demissão e cuide de sua saúde psíquica e emocional ou devo ajudá-lo a superar essa fase difícil, lembrando a dificuldade que é arrumar um outro emprego? Meus pais se intrometem demais na educação que dou aos meus filhos. Devo ter uma conversa franca com a mamãe e arrumar uma tremenda confusão ou devo continuar pedindo ao meu marido que compreenda minha situação e administrar nosso conflito conjugal? Meu amigo me confessou um pecado. Devo contar a quem de direito e forçar a solução da situação ou devo dar a ele o tempo de que precisa para tomar providências – quanto tempo devo dar a ele? Descobri uma falcatrua na empresa. Devo colocar a boca no mundo e denunciar os colegas ou devo ficar quieto, deixando que os responsáveis cuidem do problema? Tenho um ótimo funcionário que compromete o ambiente da equipe. Devo manter o funcionário e sacrificar a equipe ou preservar a equipe e sacrificar o funcionário? Meu pai está em tratamento médico. Devo vigiar rigorosamente seus hábitos alimentares ou devo deixar que ele faça uma extravagância de vez em quando? Pois é, a vida é assim. As coisas que realmente importam não têm respostas fáceis, nem exatas, nem podem ser padronizadas em conselhos do tipo “faça sempre assim” ou “nunca faça isso”. Tomar decisões é uma arte que carece de boa consciência. E a boa consciência não é aquela que sabe, é aquela que ama. Como bem disse Santo Agostinho, “ama, e faze o que quiseres”, o que significa que quando a gente ama não existe certo e errado, certo? Há controvérsias. 13/5/2008 |
|
Por que escrevo sobre religião
Por Rubem Alves Folha de S.Paulo, em 29 de abril de 2008 UMA LEITORA ME perguntou: "Por que é que você, professor universitário, escritor, gasta tanto tempo com essas coisas da religião?" Ela pensava que eu, havendo lido Marx, Freud e Feuerbach, deveria dar um uso mais científico ao meu tempo e ao meu pensamento. Minha resposta é simples: gasto o meu tempo com os sonhos das religiões porque, como disse Shakespeare, nós somos feitos de sonhos. A história é feita com sonhos. Todas as coisas materiais que fazem a vida da civilização são feitas com sonhos. Escrevo sobre a religião num esforço para acordar os que dormem. Lembro-me da propaganda de um carro que vi, faz muitos anos, numa revista americana: era um conversível vermelho, sem capota, parado num bosque. Não há ninguém no carro, e as duas portas estão abertas. A sedução -o motivo comercial para seduzir o leitor a comprar- se encontra precisamente naquilo que não se encontra na cena, mas apenas na imaginação. Se as duas portas estivessem fechadas, a mensagem seria simplesmente o carro vermelho sem capota. Se só a porta do motorista estivesse aberta, a imaginação completaria a cena: ele deve estar atrás de uma árvore fazendo xixi. Mas as duas portas foram deixadas abertas. As pessoas que ocupavam o carro estavam com pressa. A imaginação não tem alternativas, as imagens se impõem: um homem e uma mulher. Onde estarão eles? Fazendo o que? Bem dizia Bachelard que aquilo que se vê não pode se comparar com aquilo que não se vê. Quem bolou essa propaganda genial sabia que a alma é feita de sonhos. Veblen, economista, também conhecia a alma humana e por isso declarou que não compramos "utilidades", coisas práticas, materiais. Compramos símbolos. Isso que vou contar aconteceu no tempo em que a televisão fazia propaganda de cigarros. Cena silenciosa, sem uma única palavra: um bosque de pinheiros... Eu amo a natureza, amo os pinheiros, o perfume da sua resina. Os pinheiros cedem lugar a um regato de águas frias e cristalinas que corre sobre pedras. Eu também amo os regatos de águas frias e cristalinas. Uma campina verde florida. Minha imaginação sugeriu logo que deveria ser capim gordura com o seu perfume único o que me levou para a minha infância em Minas. Cavalos selvagens em galope, pelo negro brilhante. Estava certo o presidente João Batista Figueiredo quando disse que o cheiro dos cavalos suados era melhor que o cheiro de gente suada. Leonardo da Vinci declarou que os cavalos são os animais mais belos depois dos homens. Cheguei a imaginar que seria possível produzir um perfume másculo extraído do suor dos cavalos. Nenhuma mulher o resistiria! Aí entra o rosto de um vaqueiro, maxilar de noventa graus, barba de um dia por fazer -homem que é homem não se barbeia todo dia, isso é coisa de executivo-, com um cigarro entre os dedos, estilo Humphrey Bogart e as palavras, as únicas palavras: "Venha para o mundo de Marlboro!" Não, ninguém está falando em fumar! Está se falando de um mundo de pinheiros, regatos, campinas, cavalos -tudo isso faz parte do sonho que mora nas espirais de fumaça da imaginação... O conversível vermelho com as duas portas abertas e o mundo de Marlboro pertencem ao mundo das fantasias religiosas. São sacramentos. Porque sacramentos são todas as coisas feitas com uma mistura de matéria e símbolos. Você entende agora porque eu penso e escrevo sobre religião? 29/4/2008 |
|
Dos mistérios de ser Deus e homem
Esse texto é antigo. Data de abril de 2007. Mas ainda é útil, e não estava aqui. Por Fernando Altemeyer Junior Há (dez dias) publicou-se a nota condenatória: “O padre Jon Sobrino tende a diminuir o valor normativo das afirmações do Novo Testamento e dos grandes Concílios da Igreja antiga. Tais erros de índole metodológica levam a conclusões não conformes com a fé da Igreja em pontos centrais da mesma: a divindade de Jesus Cristo, a encarnação do Filho de Deus, a relação de Jesus com o Reino de Deus, a sua auto-consciência, o valor salvífico da sua morte.” Notificação da Congregação da Doutrina da Fé, Vaticano, 14 de março de 2007. Quais as razões para este gesto? Quais as razões para a condenação da obra de um teólogo tão requintado e fecundo? Terá ele diminuído o valor da mensagem evangélica e errado em seu método? Terá negado a divindade de Jesus? Terá silenciado sobre a salvação trazida por Cristo? O que diz Jon Sobrino em seus textos e o que afirma a teologia latino-americana em sua obra intelectual? Outros tantos teólogos foram condenados nos últimos 32 anos: Hans Kung em 1975 e 1980; Jacques Pohier em 1979; Edward Schillebeeckx em 1980, 1984 e 1986; Leonardo Boff em 1985; Charles Curran em 1986; Tissa Balasuriya em 1997; Anthony de Mello em 1998; Reinhard Messner no ano 2000; Jacques Dupuis e Marciano Vidal em 2001; Roger Haight em 2004 e Jon Sobrino em março de 2007. Há algo de comum entre eles? Há razões para explicar esses conflitos dogmáticos? Apresento aqui um quadro comparativo das teologias produzidas na América Latina e na Europa, para entender o que aconteceu com o padre jesuíta Jon Sobrino. Na América Latina, a formulação da fé é direta. Na Europa, é reflexa. Na América Latina, o ponto de partida é o rosto de Cristo transfigurado nos pobres. Na Europa, o ponto crucial é a transfiguração do Cristo na filosofia e no pensamento clássico. Na teologia latino-americana a preocupação é prática. Na Europa, é lógica. Na América Latina vemos o povo crucificado como cruz divina. Os pobres são cruciais. Na Europa fala-se do Deus crucificado como cruz humana. A Igreja é crucial. Na América Latina, a consciência histórica é um critério de seguimento de Jesus. Crer é seguir Jesus. Na Europa, o caminho de Jesus é objeto de investigação e critério para discernir entre o crer e o não crer. Crer é entender Jesus. Na América Latina, a pregação de Jesus sobre o Reinado de Deus é um contexto vital e mediação concreta para conhecer ao Deus vivo e verdadeiro. O Reino revela o amor e a verdade. Na Europa, a proclamação da verdade é a fonte segura do fazer teologia. A verdade revela o amor e o Reino. A Cristologia latino-americana (em particular na obra de Jon Sobrino) se faz a partir da dor humana, especialmente da humanidade padecente em sua carne e corpo. A Cristologia européia se faz a partir do conhecimento humano e da angústia existencial em sua alma e mente. A Cristologia latino-americana vem de baixo para cima. Do histórico de Jesus ao ser de Jesus. Do ser de Jesus ao ser de Deus. É alinhada à escola teológica de Antioquia, ao pensamento dos primeiros evangelistas e a São João Crisóstomo. Fazer teologia muda a vida dos teólogos. Já a Cristologia européia vem de cima para baixo. Do ser de Deus ao Cristo da fé. Do Cristo ao Jesus Ressuscitado. Do Ressuscitado ao crucificado. É alinhada aos pensadores alexandrinos, particularmente ao grande doutor Atanásio. A Cristologia latino-americana participa da esperança libertadora dos povos crucificados. É uma Cristologia ascendente, inspirada em textos clássicos dos aristotélicos e tomistas. Jon Sobrino faz parte da família espiritual que bebe desta fonte teologal. A Cristologia européia trabalha a encarnação do Verbo como manifestação salvífica de Deus. É uma Cristologia descendente, inspirada em textos clássicos dos platônicos e agostinianos. Os teólogos da Congregação da Doutrina da Fé têm bebido desta fonte espiritual. A Igreja latino-americana construiu uma teologia que dialoga com o magistério local. E este magistério se exprimiu teologicamente em Medellin, Puebla e Santo Domingo, em documentos pastorais de serviço ao povo e ao Evangelho. O que foi escrito em Medellin, em 1968, foi uma profecia autêntica do povo de Deus. O que foi assumido em Puebla, em 1979, foi a opção do Evangelho pelos pobres e contra a pobreza. O que foi encarnado e inculturado em Santo Domingo, em 1992, foi chave interpretativa dos sinais dos tempos. A missão da Igreja não é restauradora. É anúncio feliz da vida em Cristo. A teologia gestada em El Salvador, no Brasil, no Chile e em praticamente toda América hispânica e criola dialogou com o magistério local e universal. Assumiu colóquios fecundos com pastores como dom Luciano Pedro Mendes de Almeida e dom José Ivo Lorscheider. Foi sustentada por cardeais como Aloísio Lorscheider e Paulo Evaristo Arns, e por patriarcas da Igreja latino-americana que podem ser chamados de novos padres da Igreja: Jaime Francisco de Nevares, Alberto Pascual Devoto, Eduardo Francisco Pironio, Enrique Angel Angelelli (argentinos); Jorge Manrique Hurtado (boliviano); Avelar Brandão Vilela, Fernando Gomes dos Santos, Helder Pessoa Câmara, Romeu Alberti (brasileiros); Enrique Alvear, Manuel Larrain Errazuriz, Raul Silva Henríquez (chilenos); Gerardo Valencia Cano (colombiano); Oscar Arnulfo Romero (salvadorenho); Leônidas E. Proaño Villalba, Pablo Muñoz Vega (equatorianos); Juan Gerardi Conedera (guatemalteco); Marcelo Gerin (hondurenho); Bartolomé Carrasco Briseño, José Salazar López, José Alberto Llaguno Farias, Sergio Méndez Arceo (mexicanos); Marcos Gregório McGrath (panamenho); Ramón Bogarín Argaña (paraguaio); Juan Landázurri Rickett (peruano) e Carlos Parteli Kéller (uruguaio). Todos filhos do Vaticano II que retomaram a antiga patrística. Padres testemunhas como Oscar Romero e Enrique Angelelli. Mártires que semearam igrejas em todo o continente, como na expressão de Tertuliano. Vivem a teologia na doação de suas próprias vidas. A segunda onda patrística dos apologistas que defenderam a fé face ao pensamento grego e ao império romano, também tem paralelo em bispos como Manuel Larrain e especialmente no indígena Leônidas Proaño. Apologistas das culturas indígenas e da fé verdadeira. Vivem a teologia na escuta dos clamores surdos de seus povos. O sofrimento pessoal de Jon Sobrino pode ser um momento fecundo para que se descubra que a humanidade sacratíssima de Jesus é o caminho seguro para contentar a Deus, para alcançar grandes graças do Espírito Santo e, sobretudo, pode ser a porta segura para que Deus nos mostre seus grandes segredos. São Francisco mostra isso ao receber as chagas de Cristo. Santo Antônio de Pádua, ao apresentar em seu colo o menino Deus. São Bernardo e Catarina de Sena em seus poemas de amor à humanidade de Deus feito humano. E, enfim, a doutora Santa Teresa de Ávila, que em seu Livro da Vida, no capítulo 22, afirma categoricamente que o melhor caminho para a mais alta contemplação de Deus passa pela humanidade de Jesus. *Fernando Altemeyer Junior, teólogo, doutor em Ciências Sociais e ouvidor da PUC de São Paulo. 14/4/2008 |
|
Em nome de Jesus
Por O drama da narrativa bíblica reflete, em muitos sentidos, um árduo esforço divino para eliminar da mente humana o conceito de magia: a noção de que, através de fórmulas mágicas ou procedimentos estabelecidos, Deus ou o universo podem ser manipulados para atingirmos o objetivo que temos em mente. Desde a primeira página, um dos traços mais distintivos do Deus das Escrituras é que ele não faz barganhas. Não há ritual ou palavra mágica que possa torcer o seu braço a fazer o que queremos. Se Deus concede o que homens lhe pedem é reflexo da sua magnanimidade e da intimidade de relacionamento que ele propõe, jamais da habilidade humana em manipulá-lo. Essa obsessão divina em apagar da experiência humana a idéia da magia explica muito nas filigranas dos mandamentos e da Lei de Moisés. Israel não deve ter “outros deuses além de mim”, entre outras coisas, porque os deuses dos outros povos são entidades manipuláveis – aceitam suborno, dobram-se diante do ritual certo, vendem-se por um sacrifício, negociam, especulam e cedem a barganhas. Deus sabe que não é assim que o seu universo funciona, e não quer que seu povo adote essa visão distorcida do mundo. Pela mesma razão ele deita rigorosas proibições contra feitiçaria, amuletos e toda espécie de adivinhação. Os cristãos reincidem constantemente na magia.
O próprio regime de sacrifícios não pressupõe qualquer controle mágico do mundo; as prescrições deixam muito claro que trata-se de provisão graciosa para a purificação dos pecados, e não de instrumento de manipulação. Deus faz alianças e assina contratos que beneficiam outros além de si mesmo, mas não distribui senhas ou abracadabras. No mundo dele você pode pedir, mas não pode obter o que quer por mágica, isto é, pela força e pela argúcia. O que o Primeiro Testamento elucida o Novo escancara: Jesus passeia pelo mundo demolindo a noção essencialmente mágica de favor prestado e retribuição. Deus – explica o Filho do Homem – não distingue méritos e não rebaixa-se a troca de favores, mas “faz que o seu sol se levante sobre maus e bons”. Seus filhos não devem recorrer a repetitivas fórmulas mágicas em suas orações, “porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes de vós lho pedirdes”. Não é o pecado nem o bom comportamento que explicam as desgraças ou as felicidades, porque o mundo não funciona pela lógica simplista e retributiva da magia (”Pensais que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus, por terem padecido estas coisas?”). O universo – Jesus explica – funciona pela lógica singular da graça, não pela lógica humana da magia e da retribuição. Esta é, essencialmente, a natureza da boa nova do reino: Deus não pode ser manipulado a fazer o bem que já está disposto a fazer em primeiro lugar. Porém a magia tem um brilho sedutor, e os cristãos resvalam periodicamente nela: recorremos cheios de esperança a óleos milagrosos, profetas curandeiros, caixinhas oraculares de versículos, bibliomancia, quarentenas de oração e copos d’água. Mesmo a obsessão cristã com o domingo é essencialmente mágica, quando o Apóstolo alerta a não cairmos na velha armadilha de “dias de festa, ou lua nova, ou sábados”, coisas que “têm aparência de sabedoria e de rigor ascético (…), mas não são de valor algum senão para a satisfação da carne”. O emblema final e mais eloqüente da capitulação cristã a uma visão mágica do mundo talvez esteja no abuso, popular à náusea entre evangélicos e pentecostais, da expressão “em [o] nome de Jesus”. Orar e pedir “em nome de Jesus”, conforme prescrito no Novo Testamento, era provavelmente para ser entendido como se lê; seria orar “como Jesus oraria”, ou pedir “imbuído do espírito de Jesus”. Com o tempo, o enfoque migrou do espírito para a letra; transferiu-se da pessoa e da postura de Jesus para as palavras, imbuídas supostamente de autoridade e poderes sobrenaturais (de forma semelhante ao Shem Hamphoras da tradição judaica medieval). O conteúdo reduziu-se a fórmula, abracadabra que abre – esperamos – todas as portas. 22/3/2008 |
|
Talmidim
A palavra discípulo
ocorre 269 vezes no Novo Testamento. A palavra cristão ocorre apenas
uma. Fica absolutamente claro que os seguidores de Jesus eram
identificados como discípulos. Isto é, discípulo era o substantivo. A
palavra cristão, que significa "pequeno Cristo" era um adjetivo do
discípulo. Podemos deduzir que todo cristão é discípulo, mas nem todo
discípulo é cristão. Para melhor compreender isso é necessário saber o
que significa ser um discípulo.
Jesus cresceu na Galiléia, uma região caracterizada pela prática do judaísmo ortodoxo, que se dedicava a estudar, viver e ensinar a Torah. Por volta dos seis anos os meninos ingressavam na Bet Sefer - Casa do Livro, começavam a aprender a Torah, e aos quatorze já deveriam ter decorado todo o Velho Testamento. Somente os melhores entre os melhores continuavam a estudar a Torah após os quinze anos, enquanto os demais eram iniciados nos negócios da família ou eram encaminhados a outras atividades profissionais. Os que eram conduzidos à Bet Midrash - Casa de Estudo, eram chamados talmidim e ficavam sob os cuidados de um rabino. Aquele era um vestibular rigoroso. Os rabinos avaliavam criteriosamente cada candidato em busca da resposta a uma pergunta nada simples: será que um dia esse menino será igual a mim? Um talmidim deixava para trás seu pai e sua mãe, os negócios da família, sua sinagoga e seus amigos para se entregar de corpo e alma a seguir seu rabbi. O objetivo final não era apenas aprender o que o rabino sabia ou dominar o que o rabino sabia fazer. O objetivo de um talmidim era se tornar igual ao seu rabbi. Jesus também tinha seus talmidim - discípulos, seguidores. Foram chamados dentre os meninos reprovados no vestibular. Cuidavam dos negócios da família, como Pedro, André, Tiago e João, que eram pescadores, ou se dedicavam a outras atividades, como Mateus, que era cobrador de impostos. Atos 11.26 diz que foi em Antioquia que os talmidim de Jesus foram, pela primeira vez, chamados cristãos. Foram necessários mais de dez anos para que os primeiros discípulos de Jesus fossem confundidos com ele e recebessem o nome dele como apelido. O objetivo estava sendo alcançado: os talmidim de Jesus estavam se tornando parecidos com ele. Para que alguém se torne parecido com Cristo deve ser primeiro um seguidor de Jesus: antes de ser um cristão, você tem que ser um discípulo, pois se é verdade que nem todo discípulo é cristão, também é verdade que todo cristão é discípulo. Pelo menos deveria ser assim. Mas hoje as coisas são diferentes. O substantivo virou adjetivo e vice-versa: há cristãos que não são discípulos, isto é, há muita gente que se diz cristã, mas não está disposta a seguir os passos de Jesus, gente que acredita ser possível se tornar semelhante a Jesus sem se deixar cobrir pela poeira dos seus pés. Isso quando existe consciência de que ser cristão é seguir a Jesus com o objetivo de, um dia, ser como Cristo, um pequeno Cristo, um cristão. Jesus Cristo não é apenas o caminho, é também o destino: o destino Cristo ao final do caminho Jesus. 19/3/2008 |
|
Não aguento mais esse não aguento mais
O refrão do “não agüento mais” cresce a cada dia. Pessoalmente abandonei o coral. Explico. Durante muito tempo acompanhei a caravana do reformismo. Hoje essa conversa me entedia e me aborrece. Primeiro porque não acredito mais em reformas, apenas em revoluções. Mas principalmente porque não mais acredito nisso que apontam como objeto de reforma. A expressão “igreja evangélica brasileira” está fora do meu vocabulário. Não apenas porque inexata – não existe a igreja evangélica brasileira, existem milhares de igrejas evangélicas no Brasil, mas também porque tomar a parte pelo todo é um equívoco. O que não se agüenta mais é uma das faces da chamada igreja evangélica brasileira. Essa face da igreja evangélica brasileira (que, insisto, existe apenas como categoria sociológica) é absolutamente exógena, um corpo estranho, ao núcleo doutrinário e comunitário do que se chamou igreja evangélica brasileira. Em outras palavras, o que não se agüenta mais na igreja evangélica brasileira não tem nada a ver com qualquer coisa que se possa associar ao termo igreja evangélica, sendo na verdade uma nova versão religiosa do Cristianismo. O Cristianismo, considerado nas categorias das ciências da religião, é uma religião, com muitas expressões condicionadas histórica, social e culturalmente, dentre elas o Catolicismo romano e Protestantismo reformado. O que se convencionou chamar de igreja evangélica é o segmento do Cristianismo associado ao Protestantismo reformado. Nesse segmento surgiu um novo fenômeno tido como evangélico, mas que aos poucos começou a ser alvo dessas centenas de “não agüento mais”. O que percebo é que esse segmento alvejado pelo “não agüento mais” não é um segmento do Protestantismo reformado e, portanto, conforme historicamente consensado no movimento evangélico brasileiro, não deveria estar associado ao nome “igreja evangélica”. Em outras palavras, no meu caso, dizer que não agüento mais isso equivale a dizer que não agüento mais o espiritismo kardecista ou o fundamentalismo islâmico. A respeito desse tal segmento da chamada igreja evangélica que inspira os “não agüento mais” eu não digo mais “não agüento mais”. Digo que é coisa que não tem nada a ver com a identidade evangélica e que, portanto, não é alvo do meu “não agüento mais”, até porque nunca jamais agüentei. Escrever mais um artigo não agüentando mais isso é o mesmo que subscrever um artigo identificando as incoerências e inconsistências dos cultos afro e dizer “não agüento mais”. 17/3/2008 |
|
Milagres
Encontrei um trecho interessante no texto de Philip Yancey, O Jesus que eu nunca conheci, a respeito de milagre: "Alguns vêem os milagres como uma suspensão implausível das leis do universo físico. Como sinais, entretanto, servem exatamente para uma função oposta. A morte, a deterioração, a entropia e a destruição são a verdadeira suspensão das leis de Deus; os milagres são vislumbres precoces da restauração. Nas palavras de Jürgen Moltmann: 'As curas de Jesus não são milagres sobrenaturais em um mundo natural. São as únicas coisas verdadeiramente "naturais" em um mundo que não é natural, e sim demoníaco e ferido'". O milagre, nesta definição, não é a manifestação de algo sobrenatural, mas sim a retomada do que é natural. Nesse sentido, nossa atenção deve se deslocar da expressão “sobrenatural”, que desejamos que se manifeste de vez em quando, para a expressão “anti-natural”, com a qual convivemos diariamente. Isto é, devemos superar a idéia de que vivemos em um mundo natural, que aos poucos vai se deteriorando, e que de vez em quando Deus interfere sobrenaturalmente para impedir ou retardar sua deteriorização. Na verdade, vivemos em mundo deteriorado, no qual Deus age constantemente visando sua restauração. 1/3/2008 |
|
Encarnação
Para chegar a Deus você precisa passar pelo homem. Para Deus chegar em você Ele também precisa passar pelo homem. Não existe contato direto com Deus, isto é, todo contato entre o humano e o divino é mediado por um outro humano. O humano é ponte entre o humano e o divino. O humano é ponte entre o divino e o humano. Toda vez que você pretender um contato imediato com Deus, deixando de lado a ponte humana, isto é, a horizontalidade que Ele mesmo providenciou, você vai cair num abismo sem fim, isto é, vai experimentar o vazio, aquele sentimento de estar falando com ninguém. É isto o que o Evangelho ensina quando afirma que “existe apenas um Mediador entre Deus e os homens: Cristo Jesus, homem” (1Timóteo 2.5). 1/3/2008 |
|
Complexidade
Certamente você já ouviu falar no conceito de complexidade. Foi com Edgar Morin que eu comecei a transitar por essas bandas. Disse ele que “complexus significa o que foi tecido junto; de fato, há complexidade quando elementos diferentes são inseparáveis constitutivos do todo (como o econômico, o político, o sociológico, o psicológico, o afetivo, o mitológico) e há um tecido interdependente, interativo e inter-retroativo entre o objeto de conhecimento e seu contexto, as partes e o todo, o todo e as partes, as partes entre si. Por isso, a complexidade é a união entre a unidade e a multiplicidade”. (MORIN, Edgar, Os sete saberes necessários à educação no futuro. São Paulo: Cortez, 2000. p. 38.) Complexidade é a existência de “uma unidade múltipla”, o que implica o paradoxo de “uma unidade com vários centros”. Mais ou menos como a cidade de São Paulo, ou qualquer grande centro urbano. Por exemplo, antigamente havia o “centro da cidade”. Ainda me lembro daquela época quando morávamos em Santos e minha mãe dizia “hoje à tarde vou à cidade”. Hoje é bem diferente, cada canto da cidade é um centro com tudo o que tem direito: indústria e comércio, lazer, cultura e arte, escola, hospital e igrejas, muitas igrejas. Ninguém precisa mais “ir à cidade”, pois mesmo as pessoas que moram em cantos diferentes da mesma cidade, moram “no centro”. Isso é complexidade. Imagine que dentro de você existem várias cidades. Uma sobre a outra, com o se fossem camadas de um bolo. Existe dentro de você a cidade chamada “crenças e convicções”, uma outra chamada “desejos e vontades”, mais uma, chamada “pensamentos e raciocínios”, e ainda uma outra, chamada “emoções e sentimentos”. Agora, imagine que Søren Kierkegaard, teólogo cristão existencialista, estivesse certo ao afirmar que “pureza de coração é desejar uma só coisa”, e que para ver a Deus, pois somente os puros de coração verão a Deus, conforme disse Jesus (e não duvide que ele estava certo), você tem que ter seu mundo interior completamente alinhado. Isto é, o centro da cidade “crenças e convicções” tem que estar alinhado com o centro da cidade “desejos e vontades”, que por sua vez tem que estar alinhado com o centro da cidade “pensamentos e raciocínios”, e todas com o centro da cidade “emoções e sentimentos”. Essa é uma forma de extrapolar o que Kierkegaard quis dizer, mas certamente é uma boa definição de “santo” no senso comum da cultura evangélica. Quando digo “alinhado”, quero dizer que se você furar o chão bem no centro de uma cidade, você tem que encontrar exatamente o centro da cidade que está em embaixo. Nesse caso, todos os centros de todos os seus desejos e vontades, todas as crenças e convicções, todos os seus pensamentos e raciocínios, e todas as suas emoções e sentimentos têm que estar justapostos Imagine mais. Imagine que estas cidades que existem dentro de você não têm apenas um centro, e que todos os centros de todas as cidades têm que estar alinhados. E tem mais. Imagine que alguns desses centros você nem imagina que existam e alguns outros que pensa que conhece são ilusões e centros falsos. Estas são as cidades do seu subconsciente ou do seu inconsciente. Agora, imagine que todos os centros de todas as suas cidades, conscientes, inconscientes e subconscientes devem estar alinhados para que você veja a Deus. Assim imagino. E por esta razão acredito que ver a Deus é algo somente possível mediante revelação. E uma vez recebida a revelação, a gente vai fazendo a sintonia fina e alinhando pouco a pouco os centros das nossas cidades interiores. Com o passar do tempo, a imagem de Deus vai ficando cada vez mais nítida, e aí a gente perde a arrogância de falar de Deus com tantas certezas, até porque o que a gente vê deixa a gente até sem fala. 1/3/2008 |
|
A POLÊMICA UNIVERSAL
Em 15 de dezembro de 2007 a Folha de S.Paulo publicou reportagem da jornalista Elvira Lobato revelando o patrimônio da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), composto por 2 jornais, 40 emissoras de rádio, 23 emissoras de TV, e mais 19 empresas em nome de 32 membros da igreja, inclusive uma registrada no paraíso fiscal de Jersey, no Canal da Mancha, que considerou uma hipótese de que os dízimos dos fiéis sejam "esquentados em paraísos fiscais", o que sugere a utilização de dinheiro imune de tributação para favorecer atividade comercial, o que poderia ou deveria acarretar a perda de imunidade fiscal. Ao que parece, a resposta da IURD foi incentivar seus fiéis a processar jornalistas e órgãos de imprensa que publicam matérias investigativas a respeito do patrimônio do bispo Edir Macedo e da própria Igreja: com petições de parágrafos idênticos, foram ajuizadas ações de indenização por danos morais em Juizados Especiais de vários Estados. A discussão imediata ao redor dos eventos trata de temas como: assédio judicial, uso abusivo do sistema judiciário mediante instauração de ações judiciais com a nítida intenção de dificultar o direito de ampla defesa, litigância de má fé, intimidação da imprensa e atentado contra a liberdade de expressão. Discute-se também os limites da imprensa investigativa, ofensa das garantias constitucionais como a dignidade da pessoa humana, acesso à Justiça, liberdade de crença e inviolabilidade da honra. Suspeito que a IURD, uma instituição religiosa que pretende representar os interesses do evangelho de Jesus Cristo e do reino de Deus, esteja envolvida numa disputa mais facilmente identificada com interesses políticos, econômicos e comerciais. Suspeito também que as bases que fundamentam as ações judiciais dos fiéis da IURD sejam mentirosas: não creio verdadeiras as alegações de que os fiéis estejam sofrendo discriminação e sejam vítimas de preconceito e perseguição religiosa em razão das notícias veiculadas, até porque muitas destas ações foram ajuizadas em cidades e lugares remotos. Finalmente, suspeito que os fiéis da IURD estejam sendo manipulados e instrumentalizados pelos pastores e bispos, para que saiam em defesa de interesses escusos acreditando defender sua fé e seu Deus, sendo esta a face mais aviltante deste infeliz episódio. Desejo estar errado. Prefiro crer que as igrejas ainda não caíram na rede da cultura de mercado, e não se transformaram em meras fachadas para a devoção ao deus Mamon, mas permanecem fiéis à sua vocação de proclamar as boas notícias do reino de Deus, vivendo sob a máxima "de graça recebestes, de graça dai". Prefiro crer que as igrejas continuam solidárias à causa do órfão, da viúva e do estrangeiro, permanecem ambientes de emancipação e libertação, se mantêm como voz dos fracos, oprimidos e indefesos, e se recusam peremptoriamente a permitir que seus fiéis sejam transformados em massa de manobra nas mãos do ministério da iniqüidade. Prefiro crer que as igrejas não cederam à lógica maquiavélica de que "os fins justificam os meios", e não se deixaram iludir acreditando que é possível cooperar para o avanço do reino da luz fazendo uso das armas das trevas. Prefiro crer. Mas sei que crer é um ato de teimosia. 1/3/2008 |
|
The God Delusion
Meu mais recente esforço de fé não é do
tipo intelectual. Eu realmente não faço mais isso. Mais cedo ou mais
tarde você simplesmente descobre que há alguns caras que não acreditam
em Deus e podem provar que ele não existe e alguns outros caras que
acreditam em Deus e podem provar que ele existe - e a esse ponto a
discussão já deixou há muito de ser sobre Deus e passou a ser sobre
quem é mais inteligente; honestamente, não estou interessado nisso. [Donald Miller] 26/2/2008 |
|
Como seria minha vida se eu não acreditasse em Deus
Outro dia me surpreendi me perguntando como seria minha vida se eu não acreditasse em Deus. Em termos positivos, quis saber a respeito da função de Deus em minha vida (já sei, você vai dizer que reduzi deus a uma coisa e estabeleci com ele uma relação mecânica e funcional, mas deixa pra lá, você vai ver que não é isso, só estou usando a melhor palavra que achei). O primeiro impulso foi na direção da questão ética: Deus é minha matriz de certo e errado, bem e mal. Há muita coisa que faço e deixo de fazer na vida por acreditar que Deus é um padrão a ser seguido ou obedecido, não necessariamente por causa de Deus em si, mas a bem de quem o obedece ou segue: algo como seguir as orientações de um manual de instruções – você pode fazer do seu jeito, mas a coisa não vai funcionar, e o resultado não é que o manual vai ficar triste ou bravo com você, mas que a coisa não vai funcionar mesmo. Logo depois desta conclusão rápida, me pareceu óbvio que Deus não seria a única alternativa para que eu tivesse uma orientação ética: os ateus e agnósticos também têm sua ética. O passo seguinte foi imaginar que outra função Deus ocuparia em minha vida além da referência ética. Provavelmente você afirmaria o óbvio: Deus é aquele que cuida de mim, me protege, provê para o meu bem e minha felicidade. Embora eu acredite nisso, na verdade, não me basta, pois a vida está cheia de acontecimentos que me induziriam a acreditar exatamente o contrário. Caso eu dissesse a um cético que Deus é como um pai, mas um pai todo-poderoso que cuida de mim, certamente eu seria bombardeado de perguntas. Como disse Robert De Niro: “Se Deus existe, ele tem muito o que explicar”. Além disso, estar sob o cuidado de um superprotetor não é a razão porque acredito em Deus: de fato, abro mão de ser protegido – minha solidariedade com a raça humana não me permite esperar melhor sorte do que a das crianças abandonadas, dos enfermos crônicos, dos miseráveis e vitimados pelas atrocidades dos maus. Ou Deus protege todo mundo, ou a proteção não serve como fundamento para a crença nele. A idéia de um ser lá em cima fazendo e acontecendo aqui em baixo, como um mestre enxadrista que faz dos seres humanos peças num tabuleiro cósmico nunca me agradou. Mas mesmo assim, acredito nisso: sou daqueles que acredita que Deus está no controle do universo e da história. O que quero dizer é que não acredito em deus como se as coisas que acontecem ou deixam de acontecer fossem resultado de decisões divinas, do tipo: vou dar este emprego pra ele? vou curar esta criança? vou dar este câncer de mama para ela? vou fazer com que eles se casem?, e assim por diante, como se Deus fosse uma máquina de decisões que não para nunca e afeta tudo quanto existe em tudo quanto é lugar em relação a todo mundo. A maneira como percebo Deus é mais ou menos como percebo o sol: ele simplesmente está lá. Acredito em Deus mais ou menos assim: Deus está, ou se preferir, Deus é. Assim como o sol irradia seu calor sem cessar, também Deus afeta tudo em todo lugar em relação a todo mundo. O sol não precisa tomar decisões: ele simplesmente está lá. Assim também em relação a Deus. É verdade que nem todas as pessoas e nem todos os lugares são afetados pelo sol, e também que as pessoas e lugares que são afetados pelo sol experimentam o sol de maneira diferente e com conseqüências as mais variadas. Mas não por causa do sol. O sol está sempre lá e é sempre do mesmo jeito. O que muda é a realidade sobre a qual o sol incide: se a pessoa está à sombra é afetada de um jeito, se está descoberta é afetada de outro; o fruto do topo da árvore é afetado de um jeito, escondido entre as folhas, de outra; a água do lago é afetada de um jeito, empoçada, de outro; uma planta em boa terra e irrigada é afetada de um jeito, em solo ruim e seca, de outro. O sol está sempre lá e do mesmo jeito, aqui embaixo é que as coisas são diferentes. Assim também em relação a Deus. Ele é, e sempre do mesmo jeito, as condições que lhe são dadas é que mudam: uma criança sozinha na rua e outra num ambiente familiar de afeto e amor; um homem que aproveitou bem suas oportunidades de estudo e formação profissional e outro que não teve a mesma sorte; alguém com uma doença congênita e outra pessoa com propensão atlética; a periferia do Haiti e o condomínio na Califórnia. Deus é, e sempre o mesmo, fluindo de maneira plena e equânime sobre tudo e todos, em todo tempo e lugar. As realidades sob sua influência é que são distintas. Por esta razão as conseqüências de sua influência são diversas e jamais podem ser padronizadas. Já imagino o que você está pensando. Você acha que acabei de tirar a dimensão pessoal de Deus, e passei a tratar Deus como uma força ou uma energia. Faz sentido, mas tenho uma saída. A diferença entre Deus e uma força ou energia é que as forças e energias não afetam dimensões pessoais. Por exemplo, não é possível prescrever 30 minutos de banho de sol para adquirir capacidade de perdoar, 20 minutos de banho de chuva para se livrar do vício de mentir, ou 45 minutos de banho de luz para se encher de compaixão. Essas coisas: amor, perdão, misericórdia, justiça, solidariedade, pureza de coração, alegria e saudades são atributos pessoais, relativos a seres conscientes, auto-conscientes, com capacidades afetivas-emocionais, intelectuais e racionais, e volitivas. Por esta razão, o sol é apenas uma metáfora – incompleta, como toda metáfora – para Deus. Deus não é uma energia ou uma força impessoal, mas o Ser–em–Si, fundamento pessoal de toda a realidade existente. Como disse São Paulo, apóstolo: em Deus somos, nos movemos e existimos. Dallas Willard me ajudou muito a compreender isso quando afirmou que a principal maneira como somos afetados por Deus é através de “pensamentos e sentimentos que são nossos, mas não tiveram origem em nós”. Esta é minha experiência de Deus. Continuo acreditando que Deus está no controle de tudo, é livre para tomar decisões e afetar a realidade conforme sua vontade, cuida de mim e de todo mundo, faz e acontece na história e nas minhas circunstâncias, dispões de pessoas para a vida e para a morte, e o que mais você quiser ou considerar necessário atribuir como capacidade e direito a alguém que seja chamado Deus, afinal, por definição, Deus é incondicionado e ilimitado. Mas todas estas coisas atribuídas a Deus me são imponderáveis e inacessíveis. O que me afeta de fato é que crendo em Deus e conscientemente me submetendo a Ele, experimento pensamentos e sentimentos que são meus, mas não têm origem em mim. Sou levado a um estado de ser ao qual jamais conseguiria chegar sozinho. Deus é meu interlocutor amoroso. Deus é meu companheiro de viagem. O que acontece fora de mim, se Deus faz ou deixa de fazer, se foi ele quem fez ou deixou de fazer, não me diz respeito, minha razão não alcança, e, portanto, não é objeto de minha preocupação para caminhar pela vida. Mas o que acontece dentro de mim, isso sim, é tudo quanto eu tenho e me basta. Tudo quanto tenho para orientar a minha peregrinação existencial são sentimentos e pensamentos que são meus, muitos deles que não tiveram origem em mim. Isso é questão de fé. E essa é a minha fé: estou sob Deus, suplicante e humildemente dependente de seu amor para me tornar tudo quanto estou destinado a ser, independente do que me possa acontecer. A mim me basta saber que em pastos verdejantes às margens de águas puras e cristalinas, ou no vale da sombra da morte, nada preciso temer, pois Deus está comigo, refrigerando-me a alma, guindo-me pelos caminhos da justiça por amor do seu nome. A mim me basta saber que se Deus é por mim, ninguém pode ser contra mim, pois nada pode me separar do amor de Cristo: nem tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada, pois estou convencido de que nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor. Não sei como seria minha vida se eu não acreditasse em Deus. Muito menos se Deus não acreditasse em mim. E nem quero saber. 9/2/2008 |
|
Possibilidades
Acabo de ler O espírito do ateísmo, onde André Comte-Sponville propõe uma espiritualidade para ateus, isto é, uma metafísica sem Deus, e demonstra uma sobriedade ausente entre os recentes “religiofóbicos”, como Richard Dawkins, Michel Onfray e Christopher Hitchens. Ao final de sua argumentação conta que na adolescência, após ler o Eclesiastes, escreveu no caderno de notas: “Das duas uma. Ou Deus existe, e então nada tem importância. Ou Deus não existe, e então nada tem importância”. Na vida adulta conclui: “Não filosofei em vão. Repensando aquela fórmula da minha adolescência eu antes diria o contrário: “Ou Deus existe, e então tudo é importante; ou Deus não existe, e então tudo é importante”. Comento as possibilidades. #1 Deus não existe, então nada é importante. Isso é niilismo. Um mundo sem Deus é vazio de valores superiores, ou como disse Nietzsche, “faltam os fins, não há mais resposta para a questão: para que?”. Pensamento concorde com Dostoiévski: "Se Deus não existe e a alma é mortal, tudo é permitido". Deus é a base absoluta do juízo moral, a única plataforma verdadeira de responsabilidade infinita. Os céticos aos poucos se tornam cínicos. E logo se tornam loucos. Não é possível ao homem sobreviver no vazio. #2 Deus existe, então nada é importante. Isso é fanatismo. Separar Deus de sua criação e jogar todas as fichas na transcendência, numa espiritualidade abstrata, implica abandonar a única possibilidade de encontro com o divino, a saber, a imanência, com que se pode interagir dada a transparência. A tentativa de experimentar Deus além da imanência é ilusória. Dar as costas ao mundo de Deus é desprezar o Deus do mundo. Não peço que os tires do mundo... Apenas os fanáticos se sentem bem na “espiritosfera”. E lá também enlouquecem. #3 Deus não existe, então tudo é importante. Isso é materialismo. É dar valor último ao que é penúltimo. Chesterton tinha razão, quando deixamos de acreditar em Deus, acabamos crendo #4 Deus existe, então tudo é importante. Isso não sei o que é. Mas é a fé que me mobiliza. 22/1/2008 |
|
NÃO MATARÁS - Perguntas e Respostas
Promessa é dívida. Prometemos postar no Blog as respostas às perguntas que ficaram pendentes no debate de 5 de dezembro. Aí estão as que me foram encaminhadas. Pergunta A prerrogativa do “imperador levantar sua espada para promover a paz” pode ser entendida como a legitimação do instrumento “pena de morte”? Qual sua opinião a respeito da pena de morte? Resposta A Bíblia ensina que o Estado age sob delegação divina quando atua para coibir o mal e promover a justiça. Mais Isso faz eco com Max Weber, que defende que o Estado é quem deve deter o monopólio do uso legítimo da força física, sob pena de vivermos no faroeste dos filmes de cowboy: todo mundo com arma na cinta, defendendo seus interesses particulares. Extrapolar esses princípios para justificar a pena de morte é um exagero. Pessoalmente, sou contra a pena de morte. Acredito que “olho por olho” é uma lei ultrapassada pela proposta do amor feita por Jesus de Nazaré. Pergunta O BOPE deu Ibope e pode continuar a dar Ibope. A Rede Globo ganhou a concorrência para a produção de um seriado do BOPE. Será que vai ser utilizado o sensacionalismo comum na TV brasileira ou vão representar a “verdadeira luta contra a corrupção e o narcotráfico”? É tirar proveito do sucesso para ganhar em função da violência ou para mostrar a farsa do sistema? Resposta Essa pergunta deve ser encaminhada à rede Globo. Acato como desabafo. Pergunta Depois de toda essa exposição, devemos acreditar (nos conformar) apenas com a justiça divina? Resposta Sim e não. Sim, porque toda justiça legítima é por definição divina. Somente Deus é capaz de fazer justiça em plenitude, pois é o único conhecedor de todas as variáveis da situação que aos olhos humanos são consideradas injustas, e, portanto, o único capaz de julgar com equidade. Não, porque acredito que no mundo dos homens Deus escolheu agir através dos homens. Devem, portanto, os homens colocar suas consciências a serviço de Deus, para que seus atos se aproximem ao máximo do ideal divino de justiça.
Pergunta A “guerra” declarada contra o tráfico pode mesmo justificar a “morte do inimigo”? Sem o julgamento da justiça? Resposta Em hipótese alguma. O Estado de Direito implica o direito de defesa, e considera criminosa a ação daquele que pretende fazer sua própria justiça, desconsiderando os processos judiciais e legais. Pergunta Frei Betto escreveu sobre agressão e violência: “Ninguém é capaz de atacar ser semelhante a menos que produza, entre si e o outro, a dessemelhança”. Como a religião ou a espiritualidade pode ajudar para que essa “semelhança” ocorra, ou seja, que o homem veja o outro, mesmo o marginal, sem os óculos do preconceito, do ódio, da violência? Isso é possível?
Resposta A espiritualidade, no sentido de abertura de consciência para as dimensões do sagrado e do divino, oferece a base para que o outro seja visto como semelhante. A noção de sagrado e divino implica a tábua de valores a partir da qual o ser humano é encarado em sua dignidade intrínseca, que transcende as circunstâncias sociais. A crença na dignidade intrínseca do ser humano afirma o que o ser humano é, independentemente de sua condição social. Devemos distinguir a pessoa de sua personagem e de sua condição e ou situação social. Pergunta A cultura de paz poderia ser instaurada e instalada a partir do trinômio: justiça, legalidade e amor. Como realizar a paz se a lei, ela mesma, é quem gera uma sociedade injusta e violenta, segregando classes, criando e ao mesmo tempo negando oportunidade de realização da própria dignidade da pessoa humana? Resposta Quando falo em legalidade, refiro-me à lei como expressão prática e concreta da justiça. O conjunto de normas que visa regular de maneira justa e pacífica a vida
11/12/2007 |
|
No caminho (Parte 4)
Abordados os aspectos “pós-dogmática”, “pós-fundamentalista” e “pós-institucional” da tentativa de descrever a fé cristã para hoje, vamos ao ao quarto e último. Pós-colonial Philip Jenkins, em sua obra A próxima cristandade (Rio de Janeiro: Record, 2004), faz afirmações interessantíssimas: . Em 2050, apenas 1/5 dos três bilhões de cristãos do mundo serão brancos não-hispânicos. Dentro em breve, a expressão “cristão branco” talvez soe como um curioso oximoro, qualquer coisa levemente surpreendente, como “budista sueco”. Essas pessoas podem existir, mas fica implícita uma ligeira excentricidade. . A era do cristianismo ocidental já passou, dentro do espaço de nossa vida, e está despontando o dia do cristianismo meridional. . Nos últimos cem anos, o centro de gravidade do mundo cristão deslocou-se inexoravelmente para o Sul, para a África, a Ásia e a América Latina. Se quisermos visualizar um cristão contemporâneo “típico”, deveremos pensar numa mulher residente numa aldeia da Nigéria ou numa favela brasileira. . Cristianizar no puede ser equivalente de occidentalizar. (citando Vitalino Simalox)
Brian McLaren, um dos pensadores cristãos norte-americanos listados entre os precursores do movimento batizado de “emerging church” se pronuncia numa conversa consigo mesmo: “As igrejas estão emergindo do que? Estamos emergindo do Cristianismo ocidental moderno, do Cristianismo colonial, do Cristianismo como a religião do homem branco ocidental” (The emergent manifesto of hope. Grand Rapids, MI: Baker Books, 2007). Ainda que incipiente, pelo menos uma boa notícia: eles estão se olhando no espelho. McLaren certamente conhece a expressão WASP, a sigla que em inglês significa “White, Anglo-Saxon and Protestant” (Branco Anglo-Saxão Protestante). Ao que parece, foi capaz de perceber que este modelo está morrendo, ou, na melhor das hipóteses, perdendo o protagonismo e a hegemonia para a definição do sentido de “ser cristão”. Podemos considerar que a mais recente e grande mudança de marco teórico para a teologia ocorreu a partir do Vaticano II, XXI Concílio Ecumênico da Igreja católica, aberto sob João XXIII em 1962 e finalizado sob Paulo VI em 1965, seguido das Conferências Episcopais de Medellin, 1968, e Puebla, 1979, quando a Igreja católica assumiu sua responsabilidade face às questões sociais e econômicas na América Latina. A Teologia da Libertação ofereceu uma alternativa ao pensar cristão, no sentido de definição de sua identidade e missão, pessoal e comunitária. As diferenças entre os modelos europeu e latino americano são bem delineadas pelo teólogo e ouvidor da PUC de São Paulo, Fernando Altemeyer Junior, em seu texto Dos mistérios de ser Deus e homem. Apresento aqui um quadro comparativo das teologias produzidas na América Latina e na Europa (...) Na América Latina, a formulação da fé é direta. Na Europa, é reflexa. Na América Latina, o ponto de partida é o rosto de Cristo transfigurado nos pobres. Na Europa, o ponto crucial é a transfiguração do Cristo na filosofia e no pensamento clássico. Na teologia latino-americana a preocupação é prática. Na Europa, é lógica. Na América Latina vemos o povo crucificado como cruz divina. Os pobres são cruciais. Na Europa fala-se do Deus crucificado como cruz humana. A Igreja é crucial. Na América Latina, a consciência histórica é um critério de seguimento de Jesus. Crer é seguir Jesus. Na Europa, o caminho de Jesus é objeto de investigação e critério para discernir entre o crer e o não crer. Crer é entender Jesus. Na América Latina, a pregação de Jesus sobre o Reinado de Deus é um contexto vital e mediação concreta para conhecer ao Deus vivo e verdadeiro. O Reino revela o amor e a verdade. Na Europa, a proclamação da verdade é a fonte segura do fazer teologia. A verdade revela o amor e o Reino. Desde o início da década de 1980 minhas referências teológicas são os teólogos latino americanos, como René Padilla, Gustavo Gutierrez, Orlando Costas, Samuel Escobar, os irmãos Leonardo e Clodovis Boff, e José Comblin. Mais recentemente, fui apresentado ao pensamento de Frans Hinkelarmmert, Hugo Assmmann, Jung Mo Sung, Juan Luis Segundo, Jon Sobrino e André Queiruga. Além deste referencial cristão, os teólogos hebreus, especialmente os rabinos Harold Kushner, Abraham Heschel e Jonathan Sacks, dentre outros, influenciaram muito minha maneira de ler a Bíblia. Definitivamente, há uma distância abissal entre a teologia-filosófica européia e a teologia pragmática norte-americana, que James Houston chama de “mickey-mouse theology”, e a teologia encarnacional e relacional dos rabinos e dos latino americanos. Caso estejam certos os prognósticos, e não há razão para crer diferente, a “nova cristandade” será mesmo resultante do encontro das culturas e teologias dos países do terceiro mundo. Será possível perceber um evangelho despido de suas vestes imperialistas e colonialistas. Quando visitei Angola, fiquei impressionado ao perceber que os artistas africanos retrataram Jesus como negro. Corei de vergonha de meu etnocentrismo: eu que tanto critiquei a falta de sensibilidade dos missionários do primeiro mundo de língua inglesa era um perfeito filhote do protestantismo branco de classe média. Já pedi perdão a quem de direito. Evidentemente, não há quaisquer garantias de que a “nova cristandade” será melhor do que a antiga. Mas será diferente e mais próxima da realidade em que nos encontramos, nós os que vivemos eixo sul do globo: maior sensibilidade às dimensões sobrenaturais da fé, que pode desembocar em um cristianismo muito próximo do misticismo e magia do paganismo; maior comprometimento com as questões sócio-econômicas e políticas, que implica o risco de transformar o evangelho em ideologia; mais abertura ecumênica e mais diálogo inter-religioso, que podem resultar em um sincretismo desastroso. Acredito, entretanto, que, qualquer que seja a configuração da “próxima cristandade”, seus equívocos não serão mais nefastos do que têm sido os equívocos do “cristianismo wasp”. Em se tratando de Cristianismo, não existe erro melhor ou pior. Uma vez deturpado, presta apenas para ser pisado pelos homens. Mas há duas certezas embutidas nesta incerteza da “próxima cristandade”. A primeira é que todo mundo gosta de ouvir uma boa notícia em sua própria língua. A segunda é que é melhor amargar os próprios erros do que os erros dos outros. O melhor disso é a incerteza dentro da incerteza: pode até ser que a “próxima cristandade” seja um pouco mais próxima do caminho de Jesus, afinal, ele gostava mais de andar com os pobres. Ou seria o contrário? ã 2007 Ed René Kivitz 3/12/2007 |
|
No caminho (Parte 3)
Na tentativa de descrever a fé cristã para hoje, já consideramos os aspectos “pós-dogmática” e “pós-fundamentalista”. Agora vamos ao terceiro aspecto. Pós-institucional “A proposta de espiritualidade de Jesus não vingou na história”. Esta afirmação estourou como uma bomba em meu coração. Era uma tarde comum de mais uma aula na pós-graduação em Ciências da Religião. Comum, até aquele momento. Dali em diante minha cabeça entrou em outra dimensão. Lembro que alguns alunos começaram a discutir, na inútil tentativa de “redimir Jesus” e sua proposta de espiritualidade, mas fiquei reverentemente silente, uma vez que a afirmação fizera absoluto eco em meu coração. Entendi perfeitamente o que o mestre quis dizer, e concordei em gênero, número e grau. Ao ouvir aquela frase fui imediatamente arremessado aos primeiros anos da década de 80, quando ouvi o reverendo presbiteriano Waldir Berndt num congresso de teologia denunciando que a estrutura religiosa evangélica estava baseada no judaísmo vetero-testamentário. Já naquela ocasião ele afirmava que as igrejas cristãs evangélicas estavam mais próximas do livro de Deuteronômio, da Bíblia Hebraica, do que do livro de Atos dos Apóstolos do Novo Testamento cristão. Em 1993 fui desafiado pela liderança da Igreja Batista de Água Branca a escrever os subsídios bíblicos e teológicos para a elaboração do seu planejamento estratégico. Foi então que escrevi Quebrando paradigmas (Abba Press), em cujas páginas estão as impressões de Berndt. A síntese de Quebrando paradigmas sustenta as declarações de visão, missão e filosofia de atuação da Ibab ainda hoje: Ser um sinal histórico do Reino de Deus (visão), levando o evangelho todo para o homem todo (missão), priorizando relacionamentos, envolvendo todos os seus freqüentadores além dos limites culto-clero-domingo-templo (filosofia). Nas entrelinhas desta declaração de visão está a proposta de que a igreja se articule além dos paradigmas da religião institucionalizada, e a profunda (e triste) convicção de que “a proposta de espiritualidade de Jesus não vingou na história”, pois a igreja cristã ainda é cativa da religião como fenômeno sociológico. Por “religião como fenômeno sociológico” compreendo o fato de que todas as expressões religiosas estão baseadas em pelo menos três fundamentos: dogmas, tabus e ritos. Não importa qual seja a religião que você escolha, ela terá sempre um conjunto de afirmações tidas como verdades absolutas e definitivas, um código moral que normatiza a conduta em termos de certo e errado, e um conjunto de práticas que vinculam os fiéis aos seres de devoção. Otto Maduro (Religião e luta de classes. Petrópolis: Vozes, 1981) diz que no espírito da religião está a relação de obrigações e dependência entre os devotos e o que chama de seres superiores. A religião diz, por exemplo, como, quando, onde e através de quem você deve buscar a Deus. A religião diz que existem atividades especiais, dias especiais, lugares especiais e pessoas especiais através das quais a relação com os deuses é possível. Por exemplo, ir ao templo (lugar) no domingo (dia) e comungar (atividade) sob o ofício do pároco (pessoa) é uma forma de se comunicar com Deus. Por esta razão a expressão culto-clero-domingo-templo visa simbolizar o todo da religião como fenômeno sociológico, ou o que chamo de religiosidade institucionalizada. Durante séculos os judeus aprenderam que Yahveh deve ser adorado no Templo de Jerusalém, através dos sacrifícios oferecidos pelos sacerdotes, especialmente no shabat. Aí está a estrutura lugar-atividade-pessoas-dia especiais. Foi por causa desta prática milenar que a mulher samaritana perguntou a Jesus onde Deus deveria ser adorado: em Jerusalém, como os judeus ensinavam, ou no monte Gerezim, como os samaritanos preferiam. Jesus responde que “Deus é espírito é importa que os que o adoram, o adorem em espírito e em verdade”. Em outras palavras, Jesus leva a vivência da espiritualidade para dimensão interior do coração humano, liberta da estrutura lugar-atividade-pessoas-dia especiais. Em oura ocasião os discípulos perguntaram a Jesus a respeito do reino de Deus e ele respondeu simplesmente: “O reino de Deus está dentro de vós”. Os apóstolos do primeiro século compreenderam bem esta proposta de Jesus. Ensinaram que não existem dias especiais, pois “todo dia é dia santo”, pessoas especiais, pois existe apenas uma pessoa entre Deus e as outras pessoas, a saber, Jesus Cristo, e uma vez ligadas a Jesus Cristo “toda pessoa é sacerdote de si mesma”. Ensinaram também que não existia nenhuma atividade diferenciada em relação a Deus, pois, não importa se fosse comer, beber ou fazer qualquer outra coisa, tudo deveria ser feito “para a glória de Deus”, independentemente do lugar onde a pessoa esteja, pois “Deus não habita em templos feitos por mãos humanas”. Nas palavras de Jesus, liberdade é a palavra que melhor descreve o tipo de gente que a espiritualidade cristã deseja produzir: “o vento sopra onde quer. Você o escuta, mas não pode dizer de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todos os nascidos do Espírito”. Mas, infelizmente, “a proposta de espiritualidade de Jesus não vingou na história”. O cristianismo é melhor compreendido como cristandade: em vez de uma espiritualidade livre do cativeiro da religião institucionalizada, os cristãos desenvolveram intrincados sistemas de hierarquias entre pessoas, construíram templos por todo lado, inventaram um monte de rituais, e voltaram para a gaiola cuja chave do cadeado que a tranca é mantida pendurada no pescoço de alguns usurpadores da autoridade que está apenas e tão somente nas mãos de Jesus. Estes religiosos usurpadores se vêem no direito de legislar moral e doutrinariamente: dizer o que é a ortodoxia (doutrina correta) e a ortopraxia (prática correta). São idólatras de seus sistemas religiosos e lutam mais por eles do que pelo reino de Deus. Estão mais ocupados na preservação da pureza de seus dogmas, seus rituais, suas tradições, seus privilégios hierárquicos, e na própria sobrevivência de suas instituições do que em anunciar e viver a verdade que liberta. Fazem tudo quanto possível para manter os devotos na ignorância, pois sabem que no dia em que seus fiéis conhecerem a verdade, a verdade os libertará. Jesus disse que seria assim. Assim é, assim tem sido, e assim sempre será. Quanto mais instituição, menos liberdade; quanto mais cristandade, menos cristianismo; quanto mais controle, menos amor; quanto mais protagonismo humano, menos espaço para a manifestação do divino. Talvez por isso a oração de João Batista seja tão atual: “importa que Cristo cresça e que eu diminua”, o que, em se tratando de mediação para a vivência da espiritualidade cristã, podemos parafrasear: “importa que Cristo cresça e tudo o mais desapareça”. ã 2007 Ed René Kivitz 3/12/2007 |
|
No caminho (Parte 2)
Posso descrever minha fé cristã como pós-dogmática, pós-fundamentalista, pós-institucional e pós-colonial. Na primeira parte tratei do aspecto “pós-dogmática”. Agora vamos ao segundo aspecto. Pós-fundamentalista O fundamentalismo indica um movimento articulado, ou um segmento dentro de um grupo maior, mas também, e talvez principalmente, uma postura em relação às questões de crenças. A postura chamada fundamentalista está relacionada, geralmente, a grupos extremistas, que se auto-nomeiam guardiões dos fundamentos originais de sua tradição, e, portanto, são conservadores, fechados ao diálogo, e defendem suas crenças como verdades definitivas e absolutas. O termo fundamentalismo passou a ser usado para designar pessoas adeptas de crenças irracionais ou exageradas, e aos poucos foi se tornando sinônimo de fanatismo. Por força do seu desígnio de preservação dos princípios originais, ou fundamentos, de sua tradição, os fundamentalistas geralmente se articulam com ênfase no discurso apologético dogmático, mais preocupado com a defesa do que compreendem ser a verdade pura, notadamente a partir de uma leitura literalista, moralista e filosoficamente racionalista dos textos sagrados. Via de regra, os fundamentalistas têm uma postura inquisitorial, o que resulta em uma identidade construída em oposição não poucas vezes violenta a tudo e todos considerados inimigos da correta doutrina. Os dogmáticos dizem “nós temos a verdade”. Os fundamentalistas dizem “somente nós temos a verdade”. No contexto religioso cristão, o termo fundamentalismo tem raiz histórica na Assembléia Geral da Igreja Presbiteriana Americana, 1910, que, em resposta ao liberalismo teológico europeu, definiu uma declaração de cinco fundamentos considerados inegociáveis à fé evangélica: os milagres, o nascimento virginal, a morte expiatória e a ressurreição de Cristo, e a autoridade das Escrituras. Estes cinco pontos foram desdobrados em uma série de 12 livretos chamados de Os Fundamentos. Justiça seja feita: àquela altura era razoável que alguém se levantasse para manter em pauta algumas questões que uma vez descartadas acabariam por fazer ruir todo o prédio do Cristianismo. Mas acho que a coisa extrapolou. A noção de que a pureza do Cristianismo depende da preservação de um conjunto de dogmas e afirmações doutrinárias, tem origem na própria gênese do fundamentalismo cristão, a saber, o liberalismo teológico europeu e seu contexto iluminista. O ateísmo metodológico (deixar Deus de fora da explicação dos fenômenos naturais e sociais) das ciências modernas influenciou os teólogos cristãos de tal maneira que aos poucos Deus foi sendo deixado mesmo de lado. Não demorou muito para que surgissem explicações científicas para os eventos bíblicos, e até mesmo para a própria Bíblia. Os racionalistas não acreditavam na possibilidade de qualquer sobrenatural, e muito menos da invasão do sobrenatural no mundo natural e na história. Os teólogos influenciados por essa onda passaram a enxergar a Bíblia como um livro meramente humano, referencial para a caminhada e evolução espiritual da humanidade: narrativas pedagógicas, eventos simbólicos, personagens míticas, e assim por diante. Em termos simples, podemos afirmar que o liberalismo teológico europeu surgiu quando o método científico passou a ser o critério para a validação da verdade e a razão passou a ser o critério para a avaliação da experiência religiosa. A partir daí as portas para o dogmatismo e o fundamentalismo foram abertas. Os teólogos influenciados pelo racionalismo filosófico pretenderam que a verdade coubesse nos estreitos limites da razão humana. Os fundamentalistas religiosos cristãos fizeram o mesmo. A diferença entre uns e outros é o conjunto de verdades que pretendem afirmar como definitivas. Esta é uma razão suficiente para que eu descarte o movimento fundamentalista, da mesma forma que descartei o liberalismo. Mas tenho outras razões. A primeira é a armadilha embutida em todo movimento de reação. O que no início é uma resposta, com o passar dos anos passa a ser proposta. Os liberais diziam, por exemplo, que a Bíblia não é revelação divina, que Jesus é apenas o humano padrão, e que o Cristianismo é um dentre vários registros da experiência humana do divino, ainda que o melhor deles. Os fundamentalistas reagiram, e afirmaram, dentre outras coisas, sua fé na Bíblia como palavra revelada de Deus, na divindade de Jesus Cristo, e na necessidade da redenção do ser humano. E depois passaram o resto da vida afirmando e defendendo as mesmas coisas, como se essas poucas coisas, ainda que essenciais, fossem a totalidade da fé cristã. Outra razão para descartar o movimento fundamentalista é o próprio conjunto de “fundamentos”. Os fundamentos esposados pelo movimento fundamentalista são crenças teológicas. Minha questão é: seriam mesmo estes os reais e mais essenciais fundamentos pelos quais os cristãos deveriam ser identificados ao longo da história? Minha resposta é um peremptório “não”. Imagino que o amor ao próximo, a compaixão, o espírito pacificador, a solidariedade, e ou a busca incansável pela justiça seriam mais adequados como distintivos dos cristãos. Considerando que a verdade é uma pessoa, que a relação com a verdade é o relacionamento com uma pessoa, notadamente Jesus, e que o encontro com a verdade está no caminho do amor, resumir os fundamentos da fé cristã a um conjunto de dogmas e doutrinas é reduzir demais, senão até mesmo distorcer, a fé cristã. Também descarto o movimento fundamentalista porque não acredito que a crença nas afirmações por ele enunciadas implica o encontro com a verdade. Vejo embutido no espírito do fundamentalismo a sugestão de que todo aquele que acredita nos fundamentos encontrou a verdade. Já deixei claro na primeira parte deste artigo que o encontro com a verdade não é uma questão racional, mera aquiescência intelectual a um conjunto de doutrinas. Creio nas chamadas verdades fundamentais da fé cristã. Creio que Jesus nasceu da virgem, que o ser humano carece de redenção, que a morte e a ressurreição de Jesus afetaram a realidade espiritual de maneira singular, que Deus é uma dança de três pessoas (na verdade, a idéia de Deus como “pessoas” ainda me soa reducionista do que seja Deus, e a idéia de que Deus é ainda me parece reducionista, pois gosto de pensar em Deus como o Ser–em-si, conforme Paul Tillich). Mas insisto que estas minhas afirmações credais são descrições racionais da realidade, e jamais se confundem com a realidade. Isto é, não acredito que minhas afirmações credais sejam exaustivas, quer na abrangência (há mais coisas em que creio), quer no conteúdo (há mais coisas a serem ditas a respeito das coisas em que creio), quer na profundidade (há mais significados implicados nas coisas em que creio). Com isso quero dizer que minha fé e experiência cristãs jamais serão abaladas caso eu descubra aqui ou alhures que uma ou outra parte, ou mesmo a totalidade das minhas crenças, não correspondem à realidade. Quero também dizer que minhas crenças servem apenas como mapa para minha peregrinação espiritual, que é infinitamente mais complexa do que o mapa Minha última (por enquanto) razão para descartar o movimento fundamentalista é, pelo menos para mim, um pouco mais complicada: de fato creio que a Bíblia é um livro escrito a quatro mãos: divinas e humanas, e, portanto, com registros limitados aos horizontes históricos, sociais e culturais de seus autores humanos, e nesse ponto sou muito mais próximo dos teólogos liberais do que dos fundamentalistas. Particularmente considero que a evolução do pensamento humano deve de fato afetar nossa aproximação do texto sagrado. Creio mesmo que algumas coisas na Bíblia Sagrada são próprias para seu contexto de origem e devem ser desconsideradas como normatização definitiva para a vida O movimento fundamentalista como afirmação de algumas verdades (mais precisamente cinco); postura literalista de leitura das Escrituras; atitude sectária, intolerante e intransigente na defesa da verdade em termos racionais e definitivos, não me serve para a festa da celebração da fé. Por favor, alguém me empreste um outro paletó. Ou quem sabe, um bermudão. 27/11/2007 |
|
No caminho (Parte 1)
Meu professor me chamou em sua sala e jogou sobre a mesa um artigo que eu havia escrito para o jornal do Centro Acadêmico da Faculdade Teológica Batista de São Paulo. Disse que diretor havia solicitado uma avaliação, pois o teor do texto não lhe pareceu adequado à sã doutrina. Lamentei, mantive minhas palavras, e lembrei ao mestre que ele havia me ensinado aquelas coisas e me colocado no “mau caminho”. Ele riu e me dispensou. Dias depois recebi uma cópia do parecer: “O artigo não é dos mais ortodoxos, mas está nos limites toleráveis de divergência”. Já se passaram mais de vinte anos e ainda hoje me sinto andando na beirada. Os mais preocupados com meu destino eterno, já os tranqüilizei dizendo que acredito que vou para o céu, mas não no vagão da primeira classe: lá só cabem os que crêem e vivem de maneira correta, os que têm certeza de suas verdades e são irrepreensíveis aos seus próprios olhos. Não me lembro ao certo quando essa coisa me pegou, mas o fato é que desde sempre percebi que a identidade evangélica conforme compreendida pelo senso comum da sociedade brasileira não me caía bem. Confesso que tentei me enquadrar: percorri a trilha batida do chão de minha denominação, fui submisso aos meus pastores, apostei muitas fichas no jogo eclesiástico no início do meu ministério pastoral, freqüentei, como ouvinte e pregador, os mais variados auditórios da igreja evangélica. Mas em algum momento joguei a toalha. Anunciei que estava em busca de outro deus, diferente do deus dos evangélicos, e muitos acharam que eu buscava um deus diferente do Deus da Bíblia. Coloquei o pé na estrada em busca de outra espiritualidade, diferente da espiritualidade dos evangélicos, e graças a Deus meus pés ainda estão na poeira do chão. Agradeço a Deus os primeiros anos, a evangelização e formação cristã conservadora que recebi, e tenho imensa gratidão a todos os que tiveram paciência para me ensinar a andar de bicicleta. Mas agora ando sem as mãos, sem os pés, planto bananeira no selim, e, confesso, começo a achar a bicicleta um brinquedo meio chato (sim, já quebrei a cara e os dentes, mas acho que faz parte). Em síntese, o Cristianismo que me faz sentido hoje é bem diferente daquele ao qual me converti – ou fui convertido – na adolescência, foi adensado na juventude e praticado nos primeiros anos do ministério pastoral. Posso descrever minha fé cristã como pós-dogmática, pós-fundamentalista, pós-institucional e pós-colonial. Pós-dogmática Dogmatismo (do grego dogmatikós, que se funda em princípios) é a postura que admite a capacidade do homem, através da razão, atingir a verdade absoluta, definitiva e indiscutível. Dogma, ou doutrina, é a descrição da realidade, e dogmático é aquele que acredita que a realidade é exatamente da forma como a percebe. Os dogmáticos erram ao desconsiderar o fato de que a realidade é sempre maior do que o que dela conseguimos perceber, e mesmo aquilo que conseguimos perceber é maior do que o que conseguir traduzir Quando Jesus diz: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, estabelece uma nova dimensão de relação com a verdade. A partir dessa declaração de Jesus, a verdade não é mais uma questão de crença, pois já não se trata de explicar e descrever a realidade de maneira racional, mas de se relacionar com uma pessoa: o próprio Jesus. O Novo Testamento Judaico traduz corretamente João 3.16: “Deus amou tanto o mundo que deu seu Filho único, para que todo que nele confia possa ter vida eterna, em vez de ser completamente destruído”. Conforme a distinção entre fé e crença feita por Jacques Ellul, a relação com Jesus transcende a questão da crença - acredito ou não acredito; mas é uma questão de fé - confio ou não confio, entrego a ele minha vida ou não entrego. Isso ajuda a entender a afirmação de Paulo Brabo: “Minha fé não é aquilo em que acredito”. José Comblin, em seu opúsculo O que é a verdade? (Paulus: 2005), concorda que a verdade não é dogma ou doutrina, mas a pessoa de Jesus, e que o encontro com a verdade se dá no caminho de Jesus, a saber, o caminho do amor. Isso faz total sentido com o ensino dos primeiros apóstolos cristãos. João, dos discípulos, talvez o mais íntimo de Jesus, nos aponta o caminho: “Amados, amemos uns aos outros, pois o amor procede de Deus. Aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. Foi assim que Deus manifestou o seu amor entre nós: enviou o seu Filho Unigênito ao mundo, para que pudéssemos viver por meio dele. Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou seu Filho como oferta pelos nossos pecados. Amados, visto que Deus assim nos amou, nós também devemos amar uns aos outros (...) ninguém jamais viu a Deus; se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor está aperfeiçoado Deus não pode ser visto, apropriado pela razão, traduzido Estas compreensões, do limites da razão humana, da distinção entre fé e crença, a verdade como uma pessoa – Jesus, o encontro com a verdade como uma experiência no caminho do amor, me fizeram abandonar a dimensão dogmática da fé. Primeiro, porque considero toda formulação dogmática apenas uma percepção da realidade, e nunca uma descrição exata da verdade. A teologia, em termos de doutrinas e dogmas, serve à minha razão, e me ajuda organizar a realidade e me situar nela, para que o mundo me faça sentido e eu possa caminhar com direção e significado. Mas quando as descrições da realidade deixam fazer sentido, vou descartando doutrinas e dogmas. Esta é, portanto, uma das razões pelas quais abandonei a dimensão dogmática da fé: a medida que minha percepção e experiência da realidade vai se expandindo, as doutrinas e dogmas vão ficando obsoletos e insuficientes, e portanto, vão sendo abandonados pelo caminho. Mas há uma segunda razão porque abandonei a dimensão dogmática da fé. Comblin me convenceu que “os catequistas não podem comunicar a verdade – não podem comunicar à outra pessoa o conhecimento da verdade. Nem os pregadores e nem os teólogos podem fazer isso. Podem comunicar discursos humanos sobre Jesus, mas isso não é tornar conhecida a verdade (...) os catequistas, os pregadores e os teólogos podem fornecer elementos de reflexão; podem transmitir o seu próprio conhecimento ou colocar os ouvintes em condições favoráveis para que possam fazer a experiência do amor, mas devem dar a conhecer que não podem fazer mais que isso: convidar as pessoas a entrar no caminho do amor (...) Não adianta discutir ou procurar convencer. Uma pessoa vê ou não vê. Não adianta forçar alguém que não pode ver a ver. Somente pode ver quem está no caminho de Jesus pelo amor. Os demais não podem enxergar nada e somente podem explicar a visão dos outros em termos de ilusão ou loucura. Ver a verdade não é como ver um objeto, ou como ver um raciocínio. É um ver que envolve a pessoa toda, a vida toda. Não é uma visão que se contempla um momento para passar a outro objeto. É uma visão que acompanha a vida”. Levando às últimas conseqüências, subscrevo Comblin: “a pessoa pode até não conhecer o nome de Jesus, mas se ela segue o caminho de Jesus, está na verdade”. Adeus dogmatismo. Bem vindo Jesus. 27/11/2007 |
